Memórias da Infância
Pensando sobre a infância do ponto de vista pedagógico, penso que uma infância estimulante, com brincadeiras apropriadas a cada etapa de desenvolvimento, contribui para a formação da personalidade e são fundamentais para a construção afetiva e cognitiva saudável da criança. As situações lúdicas auxiliam a criança a lidar com sentimentos, contribuindo com o amadurecimento e colaborando para as decisões que tomará posteriormente na vida adulta.
Quando penso na minha infância lembro, com saudades, que tive uma infância muito feliz e muito ativa. Na minha época de criança só quem tinha computador, celular e brinquedos eletrônicos eram as pessoas de classe social mais alta. Felizmente meus amigos e eu não tínhamos acesso a tanta tecnologia como as crianças de hoje possuem. Nossa diversão estava justamente em brincar. Pura e simplesmente brincar. Fazíamos muitos dos nossos brinquedos, qualquer coisa podia ser usada numa brincadeira. Uma caixa de papelão, por exemplo, era usada pra descer um morro escorregando. Quanto mais alto, mais velocidade, mas diversão, e sem um freio, mais nariz ralado. Dos tombos inevitáveis a gente levantava, nossa mãe analisava e então a gente recomeçava! Cada cicatriz valia a pena.
Como nasci e cresci na zona rural, cresci longe do trânsito e da violência da cidade, que na época era muito menor do que é hoje. Íamos caminhando para a escola que ficava próxima. Não tínhamos medo de assaltos, sequestros ou atropelamentos. Éramos crianças com preocupações de crianças. Brincávamos no quintal de casa que não tinha muros ou cercas. Brincávamos na rua a noite enquanto nossas mães conversavam no portão. Lembro do meu pai me ensinando a andar de bicicleta a noite depois que ele chegava do trabalho. Enquanto me ensinava parávamos várias vezes no caminho para conversar com um vizinho. As portas e janelas não ficavam trancadas, as pessoas se conheciam e se respeitavam.
Na escola as brincadeiras sempre eram bastante ativas. No recreio uma professora sempre nos acompanhava. Além disso dois dias na semana tínhamos o horário da brincadeira no pátio da escola. Nesses dias a professora sempre ensinava brincadeiras novas. Brincávamos de queimada, amarelinha, passa anel, roda, morto vivo, corrida de saco, dança da cadeira e várias outras que não são conhecidas mas que a professora adaptava na aula. Uma que eu nunca me esqueço é a brincadeira “Coelhinho sai da toca” era uma das minhas preferidas.
Hoje vejo muitas crianças perdendo a própria infância na frente de um computador ou com um celular nas mãos. Com os valores invertidos, ter passou a ser prioridade e ser ficou em segundo plano. Os pais se preocupam tanto em dar aos filhos os bens materiais que nunca tiveram e esquecem de dedicar tempo para dar aos filhos a atenção que tiveram.
O que mais sinto saudades da minha infância é da maneira simples de viver a vida. Sem grandes preocupações, sem tanta correria, sem tanta necessidade de comprar e ter coisas. Me lembro dos vários brinquedos que fizemos com embalagens vazias, das bonecas de retalho que minha bisavó fez pra mim. Tudo simples, sem custo. Na correria de hoje onde nem vejo o tempo passar percebo o quanto cresci. Mas com as cicatrizes dos joelhos ralados vou levar as boas lembranças de uma infância incrivelmente feliz.